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Autismo
Autismo e terapias comportamentais: como a psicologia pode ajudar
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que pode se manifestar de diferentes formas. As características, necessidades de suporte e habilidades variam significativamente de uma pessoa para outra — e podem também se modificar ao longo da vida.
Por isso, falar em “tratamento do autismo” não significa buscar eliminar as características autistas. O objetivo das intervenções é oferecer suporte para que a pessoa desenvolva recursos, autonomia, comunicação, participação social e qualidade de vida, sempre considerando suas necessidades individuais.
Entre as diferentes possibilidades de intervenção estão as terapias comportamentais e psicológicas, que podem contribuir para o desenvolvimento de habilidades e para o manejo de dificuldades que interferem no cotidiano.
O que é o autismo?
O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças na comunicação e interação social, associadas a padrões restritos ou repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.
Entretanto, não existe uma única forma de ser autista.
Algumas pessoas podem precisar de pouco suporte para realizar suas atividades cotidianas, enquanto outras necessitam de apoio significativo em diferentes áreas da vida. Também existem diferenças relacionadas à linguagem, autonomia, aprendizagem, processamento sensorial, relações sociais e regulação emocional.
A Organização Mundial da Saúde destaca que as capacidades e necessidades das pessoas autistas são diversas e podem mudar ao longo da vida. Intervenções psicossociais baseadas em evidências podem contribuir para habilidades de comunicação e interação social, além de favorecer o bem-estar e a qualidade de vida.
Por isso, uma intervenção adequada deve partir da pergunta:
“Do que esta pessoa precisa para ter uma vida mais funcional e significativa?”
E não simplesmente:
“Como fazer essa pessoa parecer menos autista?”
Essa diferença é importante para uma prática terapêutica ética e centrada na pessoa.
Como as terapias comportamentais podem ajudar?
As abordagens comportamentais procuram compreender a relação entre contexto, comportamento e consequências.
Isso significa observar não apenas o comportamento apresentado, mas também:
-
o que acontece antes dele;
-
em quais situações ele aparece;
-
qual função pode estar desempenhando;
-
o que acontece depois;
-
quais habilidades a pessoa já possui;
-
quais habilidades ainda precisam ser desenvolvidas;
-
quais adaptações ambientais podem facilitar seu funcionamento.
Essa compreensão permite construir intervenções individualizadas.
De acordo com o CDC, as abordagens comportamentais são utilizadas para trabalhar diferentes habilidades em pessoas autistas, sendo a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) uma das abordagens comportamentais mais conhecidas.
É importante, porém, lembrar que terapia comportamental não é sinônimo de ABA. Existem diferentes intervenções baseadas em princípios comportamentais, e a escolha deve considerar idade, necessidades, objetivos, contexto e preferências da pessoa.
1. Desenvolvimento de habilidades sociais
Situações sociais podem exigir uma série de habilidades que nem sempre são intuitivas para uma pessoa autista.
Por exemplo:
-
iniciar uma conversa;
-
manter uma interação;
-
compreender regras sociais implícitas;
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identificar diferentes perspectivas;
-
lidar com mudanças durante uma interação;
-
pedir ajuda;
-
expressar necessidades;
-
estabelecer limites;
-
compreender determinadas situações sociais.
A terapia pode ajudar a transformar algumas dessas situações em habilidades que podem ser explicitamente ensinadas, praticadas e generalizadas para diferentes ambientes.
O objetivo não precisa ser fazer com que a pessoa se comporte exatamente como uma pessoa neurotípica, mas ampliar seu repertório para que tenha mais possibilidades de escolha e participação.
2. Comunicação e expressão de necessidades
A comunicação é uma das áreas que pode receber atenção durante as intervenções.
Isso pode envolver comunicação verbal ou não verbal, dependendo das características da pessoa.
O trabalho pode incluir habilidades como:
-
expressar necessidades;
-
solicitar ajuda;
-
comunicar desconforto;
-
dizer “não”;
-
iniciar interações;
-
compreender instruções;
-
desenvolver formas alternativas de comunicação.
Algumas pessoas podem se beneficiar de recursos como imagens, gestos, comunicação aumentativa ou dispositivos eletrônicos.
A comunicação, portanto, não deve ser compreendida apenas como “falar mais”, mas como conseguir comunicar aquilo que a pessoa precisa, pensa, sente e deseja.
3. Regulação emocional
Pessoas autistas podem apresentar dificuldades relacionadas à identificação, expressão e regulação das emoções.
Uma intervenção psicológica pode ajudar no desenvolvimento de estratégias para reconhecer:
“O que estou sentindo?”
“Como percebo que estou ficando sobrecarregado?”
“O que costuma desencadear esse estado?”
“O que posso fazer quando isso acontece?”
Podem ser trabalhadas estratégias de identificação emocional, resolução de problemas, comunicação de necessidades, manejo da frustração e reconhecimento de sinais de sobrecarga.
O Ministério da Saúde também destaca a importância de estratégias voltadas à autorregulação emocional e ao desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais no cuidado de pessoas autistas.
4. Manejo de comportamentos que causam sofrimento
Alguns comportamentos podem causar sofrimento ou dificultar significativamente a vida cotidiana.
É importante evitar simplesmente classificá-los como “comportamentos ruins”.
Um comportamento sempre acontece em algum contexto e pode cumprir determinada função.
Por exemplo, uma crise pode estar relacionada a:
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sobrecarga sensorial;
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dificuldade de comunicação;
-
mudança inesperada na rotina;
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frustração;
-
dificuldade para compreender uma situação;
-
excesso de demandas;
-
dor ou desconforto;
-
dificuldade para pedir uma pausa.
Por isso, antes de tentar eliminar um comportamento, é importante compreender por que ele está acontecendo.
A partir dessa análise, pode ser possível ensinar estratégias alternativas para comunicar necessidades, lidar com situações difíceis ou modificar o ambiente.
No caso de comportamentos agressivos ou autolesivos, por exemplo, o Ministério da Saúde possui diretrizes específicas para avaliação e manejo, reforçando a necessidade de uma abordagem estruturada e individualizada.
5. Flexibilidade diante de mudanças
Mudanças inesperadas podem ser particularmente difíceis para algumas pessoas autistas.
Alterações na rotina, mudança de planos, ambientes novos ou tarefas inesperadas podem gerar ansiedade e desconforto.
A terapia pode trabalhar gradualmente:
-
tolerância a pequenas mudanças;
-
antecipação de situações novas;
-
estratégias para lidar com imprevistos;
-
resolução de problemas;
-
comunicação sobre mudanças;
-
construção de rotinas mais flexíveis.
O objetivo não é eliminar a necessidade de previsibilidade, mas ampliar a capacidade de lidar com diferentes situações sem exigir uma adaptação constante e unilateral da pessoa.
Em alguns casos, adaptar o ambiente também é parte essencial da intervenção.
6. Desenvolvimento de autonomia
As terapias comportamentais também podem contribuir para o desenvolvimento de habilidades relacionadas à vida cotidiana.
Dependendo da idade e das necessidades da pessoa, podem ser trabalhadas habilidades como:
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organização da rotina;
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higiene;
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alimentação;
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gerenciamento de tarefas;
-
uso de transporte;
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organização de estudos;
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habilidades profissionais;
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planejamento;
-
resolução de problemas;
-
tomada de decisões.
O objetivo é aumentar a independência sempre que possível.
A própria definição de reabilitação da OMS enfatiza a importância de favorecer a participação da pessoa em atividades cotidianas, educação, trabalho e comunidade, considerando suas necessidades e o ambiente em que vive.
E a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)?
Evidências mostram que pessoas no nível que suporte 1 a TCC pode ser utilizada com pessoas autistas, especialmente quando existem dificuldades emocionais ou transtornos associados.
Por exemplo:
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ansiedade;
-
depressão;
-
baixa autoestima;
-
medo de situações sociais;
-
dificuldades relacionadas à mudança;
-
pensamentos autocríticos;
-
dificuldades de resolução de problemas;
-
estresse.
E quando o autismo está associado à ansiedade ou depressão?
O autismo não impede que uma pessoa desenvolva outros problemas de saúde mental.
Ansiedade e depressão, por exemplo, podem ocorrer em pessoas autistas e podem exigir intervenções específicas.
Nesses casos, a psicoterapia pode trabalhar tanto as dificuldades emocionais quanto os fatores relacionados ao contexto da pessoa.
Por exemplo, uma pessoa autista que apresenta ansiedade social pode precisar desenvolver estratégias para lidar com pensamentos ansiosos, mas também pode precisar de adaptações ambientais, educação sobre relações sociais e estratégias de comunicação.
Isso reforça a importância de uma avaliação individualizada.
A família também pode fazer parte do processo
O acompanhamento não precisa se limitar à pessoa autista.
Orientar familiares e cuidadores pode ser muito importante para favorecer a generalização das habilidades aprendidas durante a terapia.
A família pode aprender, por exemplo:
-
como identificar possíveis gatilhos;
-
como oferecer instruções mais claras;
-
como favorecer comunicação;
-
como reforçar habilidades;
-
como organizar a rotina;
-
como responder diante de crises;
-
como promover autonomia;
-
como evitar reforçar involuntariamente determinados comportamentos.
O Ministério da Saúde recomenda um cuidado centrado nas necessidades individuais da pessoa e de sua família, com construção compartilhada do plano terapêutico.
Terapia para autismo não deve buscar “normalizar” a pessoa
Esse é um ponto fundamental.
O objetivo da intervenção não deve ser simplesmente fazer com que uma pessoa autista esconda suas características para parecer neurotípica.
Por exemplo, comportamentos autorregulatórios — como movimentos repetitivos — podem ter funções importantes para algumas pessoas. Da mesma forma, interesses específicos podem representar fontes de prazer, identidade, conhecimento e conexão.
O foco deve estar principalmente naquilo que:
-
causa sofrimento;
-
limita a participação;
-
aumenta riscos;
-
dificulta a comunicação;
-
prejudica a autonomia;
-
interfere significativamente na qualidade de vida.
Uma intervenção ética procura ampliar possibilidades, e não retirar da pessoa sua identidade.
Não existe uma única terapia que funcione para todas as pessoas
Como o espectro autista é extremamente heterogêneo, também não existe um único plano terapêutico que seja adequado para todas as pessoas.
Uma criança pode precisar de maior suporte para comunicação e habilidades de vida diária.
Um adolescente pode precisar de ajuda para lidar com mudanças, relações sociais, ansiedade e demandas escolares.
Um adulto pode procurar psicoterapia principalmente por ansiedade, depressão, relacionamentos, trabalho, autoestima ou dificuldades relacionadas ao diagnóstico tardio.
Por isso, o planejamento deve considerar idade, contexto, habilidades, dificuldades, objetivos, ambiente e preferências da própria pessoa.
O Ministério da Saúde destaca justamente a importância de um Projeto Terapêutico Singular, construído a partir das necessidades da pessoa e de sua família, com foco em autonomia, protagonismo e inclusão.
O papel da psicoterapia é ampliar possibilidades
Quando falamos sobre terapias comportamentais e autismo, é importante ir além da ideia de simplesmente “mudar comportamentos”.
O comportamento é uma forma de interação com o ambiente.
Compreendê-lo pode ajudar a descobrir necessidades, ensinar novas habilidades, modificar contextos e criar estratégias que permitam à pessoa lidar melhor com as situações do cotidiano.
Assim, a psicoterapia pode contribuir para que a pessoa autista tenha mais recursos para se comunicar, tomar decisões, lidar com emoções, desenvolver autonomia e participar de atividades que sejam importantes para ela.
O objetivo final não é fazer com que a pessoa seja diferente de quem é.
É ajudá-la a construir uma vida com mais autonomia, bem-estar, participação e qualidade de vida.
Quando procurar ajuda psicológica?
A avaliação de um profissional pode ser indicada quando dificuldades emocionais, comportamentais ou sociais estão causando sofrimento ou interferindo significativamente na vida cotidiana.
A psicoterapia pode fazer parte de um cuidado multiprofissional, em conjunto com outros profissionais quando necessário, como fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, médicos e profissionais da educação.
Quanto mais individualizado for o cuidado, maiores são as possibilidades de que ele esteja alinhado às necessidades reais da pessoa.
Se você ou alguém da sua família está enfrentando dificuldades relacionadas ao autismo, procure um profissional capacitado para realizar uma avaliação individualizada.
Referências
-
Organização Mundial da Saúde (OMS). Autism. 2025.
-
Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Treatment and Intervention for Autism Spectrum Disorder. 2024.
-
Ministério da Saúde. Autismo — Atenção Primária à Saúde.
-
Ministério da Saúde. Projeto Terapêutico Singular.
-
NICE. Autism spectrum disorder in under 19s: support and management.